21/09/2011

Quando se Enxerga com o Coração

Todas as imagens tiradas dos olhos de Stevie Wonder se transformaram em genialidade, tornando-o um dos maiores nomes da história da música.
 
 
 
 

Stevie Wonder
nunca viu o nascer do sol. O sorriso de uma criança. O olhar sedutor de uma mulher. Nunca viu a própria cor de sua pele que sofreu tanto preconceito. O teclado branco e preto de seu piano. O tambor da sua bateria. As cordas de sua guitarra. O brilho de sua gaita.

Mas isso jamais foi um limite para ele. Ele conhece tudo isso muito bem. Digo que Stevie Wonder tem os olhos dentro do seu coração tamanha sensibilidade. Tamanho grau de consciência de tudo que está em sua volta sem precisar ter dado uma pequena olhada para tudo.

Stevie Wonder é gênio. E para gênios não existe muita explicação. O que poderia ser uma deficiência num primeiro momento, se tornou eficência. Se tornou música boa para o mundo inteiro ouvir. Stevie Wonder ecoa nos quatro cantos do globo de tão memorável que é a sua obra.

Como ele mesmo diz, a música deu tudo o que ele tem na vida. Como um negro e cego poderia ter tanto sucesso e dinheiro num mundo muitas vezes cruel com pessoas deficientes? Que insiste em deixar as minorias cada vez mais fragilizadas? Só mesmo sendo fora da curva.

E Stevie Wonder tem provado em sua sua longa e fantástica carreira que aquilo que o ser humano carrega dentro de si é que faz a diferença. Todas as imagens tiradas de Stevie Wonder, foram transformadas em sensibilidade, talento e força para superar as dificuldades.

Stevie Wonder quebrou barreiras de sua raça. Superou todos os obstáculos possíveis e impossíveis. Arrebentou com aquela máxima que uma imagem vale mais que mil palavras. Por isso hoje é sem dúvida uma lenda viva da música. Um dos maiores da história. Um exemplo de vida para todos.

 
 
 
 
 

Da Motown para o Mundo

Stevie Wonder é mais um gênio que nasceu naquela casinha em Hitsville na cidade de Detroit. A legendária Motown. Berço esplêndido da música negra. Que abriu espaço para que jovens negros pudessem demonstrar seu talento para o mundo inteiro. E o pequeno Stevie foi um deles.

Assinou com a gravadora aos 11 anos de idade e de lá pra cá colocou mais de 30 hits no topo, ganhou 25 Grammys e gravou alguns álbuns que estão entre os melhores de todos os tempos como "Talking Book", "Innervisions" e sua obra prima "Songs In The Key Of Life".

A genialidade de Stevie Wonder era tão grande que até o rígido e durão dono da gravadora Berry Gordy, dava ao astro negro maior liberdade do que para todos os outros artistas da Motown. Mesmo tendo gravado "Uptight" e outros hits bem no estilão fábrica de sucessos.

E Stevie Wonder era algo de muito diferente. Um compositor notável, instrumentista completo e um cantor tecnicamente perfeito. Chegou até a gravar um álbum de Soul/Jazz instrumental onde sua gaita era estrela principal do disco sob a faceta de Eivets Rednow.

Já no final dos anos 60, entre 1968 e 1970,  já começava a se desenhar o Stevie Wonder brilhante da década seguinte. Mais maduro ele compôs maravilhas do quilate de "I Was Made to Love Her"; "For Once in My Life" e "Signed, Sealed, Delivered I'm Yours".

 
 
 
 

A Maravilha dos Anos 70

Sem dúvida a década de 70 foi o auge criativo de Stevie Wonder. Foi onde ele revolucionou a música negra e pode colocar em prática todo aprendizado do primórdios da Motown. Já não fazia mais aquela música negra cheia de fórmulas para branco ouvir. Começou a colocar sua marca.

E o ponto crucial para isso foi o controle total criativo e dos direitos autorais de sua obra na sua renovação de contrato com a Motown. Stevie Wonder não teria mais que aceitar ingerências da gravadora sobre sua música. Ele passaria a ser dono de tudo que fizesse.

E assim nasceu o álbum "Music On My Mind" que era totalmente diferente de tudo que a gravadora lançara até então. Era um álbum com temática própria do começou ao fim. É aquele que tem as lindíssimas e eternas "Superwoman" e "I Love Every Little Thing About You".  

 
 
 
 


Logo em seguida Stevie Wonder lançou sua primeira obra prima. O álbum "Talking Book" que defino como um divisor de águas não só na carreira do velho mestre como também da música negra. E tudo porque além de "You are The Sunshine Of My Life", é o álbum de "Superstition".

"Superstition" pra mim é a grande música da carreira de Stevie Wonder. E não só isso, está entre as melhores músicas negras da história. Ela é revolucionária pois usava o inédito sintetizador e lógico, o marcante e antológico riff de clavinete. Uma pedrada eterna.

Sem deixar seu público respirar, Stevie Wonder lançou logo em seguida em 1973 o álbum "Innervisions". Mais uma obra prima da lenda viva. Um álbum realmente notável musicalmente e que já carregava todo um conteúdo político e engajado que marcou a carreira do ídolo.

Superior a "Talking Book", "Innervisions" ganhou Grammy como Álbum do Ano e está entre os 30 melhores álbuns do Século 20. É o álbum de "Golden Lady", "All Love Is Fair", "Living For The City" e principalmente a estonteante "Higher Ground".

 
 
 
 

"Higher Ground" conta a história de alguém que teve uma segunda chance na vida, e por coincidência, logo depois de lançá-la Stevie Wonder sofreu um grave acidente de carro, ficando 10 dias em coma. Mas como na música, o gênio teve uma segunda chance, graças a Deus.

Em 1974 Stevie Wonder receberia mais uma vez o Grammy como Álbum do Ano com o super político "Fulfillingness' First Finale" que tem a obra prima "You Haven't Done Nothin", além das ótimas "Boogie on Reggae Woman" e a lindíssima "Bird Of Beauty".

O Definitivo Songs In The Key Of Life

A crítica especializada coloca "Innervisions" na frente. Mas para mim o álbum "Songs In The Key Of Life" não só é o melhor álbum de Stevie Wonder, como é também definitvo. Se Stevie Wonder parasse por aí já seria a uma lenda. Não precisava realmente fazer mais nada.

Tomando dois anos de Stevie Wonder na sua concepção, "Songs In The Key Of Life" foi lançado em 1976 como álbum duplo. E mais uma vez o velho mestre receberia o Grammy como Álbum do Ano com toda justiça e foi campeão de vendas no mundo inteiro.

 
 
 
 

"Songs In The Key Of Life" também foi o primeiro álbum de um artista negro a entrar no seu lançamento no 1º lugar da Billboard ficando nesta posição por 14 semanas e Top 40 por 44 semanas. Ou seja, algo de muito sério na música tinha acontecido naquele momento.

"Songs In The Key Of Life" é uma incrível coleção de grandes músicas. Os mais desavisados podem realmente confundí-lo como um álbum do tipo "Greatest Hits" tamanha a qualidade e sucesso de suas faixas. Esta sem dúvida entre os 10 melhores da história da música negra.

"Songs In The Key Of Life" tem simplesmente "Sir Duke", "I Wish", "As", "Isn't She Lovely", "Pastime Paradise", "Another Star", "Knocks Me Off My Feet", "Black Man" e "Ngiculela -Es Una Historia - I'm Singing". Foi o período mais criativo da carreira do mestre.

As Irregulares Décadas de 80 e 90

 
 
 
 

Depois de 3 anos sem gravar Stevie Wonder voltaria e muito bem em 1980 em "Hotter Than July". Um dos grandes álbuns em vendas de sua carreira. E um álbum realmente inspiradíssimo com músicas simplesmente soberbas como "All I Do" e "I Ain't Gonna Stand it"'.

Ainda "Hotter Than July" marcaria o auge de engajamento político do cantor com a música "Happy Birthday" que seria tema da campanha para que a data da morte de Martin Luther King se tornasse feriado nacional nos Estados Unidos. E hoje este dia é feriado.

Dois anos mais tarde era lançada a coletânea "Stevie Wonder's Original Musiquarium" com 4 canções inéditas, e 3 delas simplesmente sensacionais que estão entre as melhores de sua carreira como a saculejante "Do I Do" e as baladas "Ribbon In The Sky" e "That Girl".

 
 
 
 

Depois disso o sucesso comercial de Stevie Wonder foi aumentando consideravelmente mas a qualidade criativa de suas músicas foram dimuindo. Claro que um gênio desse sempre cria algo de muito bom no meio de canções açucaradas como muitas que fez.

Começaram a surgir canções menores do velho mestre mas que foram sucesso absoluto de vendas. Como por exemplo "Ebony and Ivory"com Paul McCartney ou a trilha sonora do filme "A Dama de Vermelho" que contém o megahit "I Just Call To Say I Love You".

Em 1986 ele lançou o bom "In Square Circle" que apesar de ter a melosa "Overjoyed", tinha também as maravilhosas "Go Home" e "Part-Time Lover". Mais 4 álbuns se seguiram com apenas alguns lampejos de genialidade como na música "Conversation Peace".

Mas depois de tudo que fez, isso pouco importa!

 
 
 
 


Sérgio Scarpelli