28/01/2014

Carta de Amor ao Passado

Redescobrindo e reconstruindo o som do Chic e da Disco,o duo francês Daft Punk dá um grande passo a frente olhando o que aconteceu lá atrás.
 
 
 
 

É realmente incrível que um dos duos mais eletrônicos, robotizados e futuristas dos últimos tempos tenha percebido que a Dance Music de hoje em dia está sem alma.  Que os recursos eletrônicos na verdade se tornaram uma espécie de preguiça mental, sem coração pulsando nos teclados.

Que o Daft Punk é especial isso ninguém duvida. Eles vem fazendo coisa boa há muito tempo. Mas o que eles fizeram com "Random Acess Memories" vai muito além. Eles simplesmente deram um soco no estômago na mesmice e se reinventaram de uma tal maneira que causou comoção no mundo da música.

Mesmo com uma estratégia de marketing agressiva, usando e abusando das redes sociais, não me lembro nos últimos tempos de um álbum tão aguardado quanto esse. De tanto barulho por causa de um lançamento. Até isso esta incrível dupla francesa resgatou e isso é muito bom já que o conceito de álbum agoniza.

O álbum "Random Acess Memories" é uma carta de amor ao passado. É reutilizar o que era mais precioso na música que é a sua alma. Quando eu ouço os acordes da guitarra de um Nile Rodgers numa música tão atual quanto a do Daft Punk, encaro como um poema sonoro. Não é saudosismo.

Realmente os Anos 70 foram muito ricos. E a música Disco foi uma inovação que não tem tamanho. Ela é o alicerce de muita coisa que se tornou comum. Desde os desbravadores da Filadélfia, até a febre mundial. Se temos Djs, remixes, e por aí vai, foi lá onde tudo nasceu.

E o Daft Punk se apercebeu disso. Olhou lá pra trás para fazer uma música a frente do seu próprio tempo. Quando escalou um Nile Rodgers ou um Giorgio Moroder para colaborar, simplesmente se curvou a dois dos maiores produtores da história da música. O Daft Punk se rendeu ao óbvio.

E não é simplesmente uma questão de gostar de música Disco ou não. Eu amo e não escondo. Mas os fatos não mentem. Nile Rodgers tem na sua bagagem a invenção de uma Madonna, a reivenção de Diana Ross e David Bowie por exemplo. Fora o que ele fez com seu grupo Chic e Sister Sledge.

Giorgio Moroder foi o dono dos anos 70 na sua parceria com Donna Summer. Ele ficou no topo na década e colocou a música eletrônica numa pista. Giorgio é dono de "I feel Love", uma música tão revolucionária para sua época que foi preciso inventar o single 12 polegadas para caber tudo.

Ao se render a estes produtores do passado, o Daft Punk simplesmente propõe uma volta à época em que as faixas tinham assinatura, em que os produtores tinham marcas próprias. Que esta falta de singularidade de hoje em dia é uma grave falha no cenário. E a sonoridade e carimbo humano deviam voltar.

Desde a pré-produção do disco, essa preocupação foi latente. O duo gravou nos melhores estúdios e se preocupou com os detalhes de tudo, como a escolha dos microfones de captação. O álbum é uma crítica ao cenário atual, mas feita de uma maneira elegante e inovadora. Bateram e assopraram.

Falando do álbum em si, a música que abre "Random Acess Memories" não deixa dúvidas das reais intenções da dupla Guy-Manuel e Thomas Bangalter. Além do título conceitual "Get Life Back to The Music" a faixa é de uma sonoridade orgânica monumental marcada pela guitarra de Nile Rodgers.

"Get Lucky", que é a faixa mãe e já carrega a marca de Hit do Ano, tem além de Nile Rodgers e sua guitarra, um vocal incrível de Pharrell Williams no melhor estilo Michael Jackson. Realmente é um musicão e a versão do álbum de 6 minutos é puro deleite. Música que nasceu pra ser feliz.

"Lose Yourself to Dance"
que também tem os vocais de Pharrell Willimas é uma faixa centrada no elemento humano. Em outras palavras, uam faixa que resgata as “batidas por minuto” de forma complementar com instrumentos, e não como algo que surgiu de cliques em um computador.

Outro ponto altíssimo do álbum é a rasgada homenagem ao produtor ícone do movimento Disco, Giorgio Moroder . A faixa "Giorgio By Moroder é construída sobre batidas leves, uma extensa introdução, solos de guitarra e os sons de orquestra. Ou seja, outra música realmente de tirar o fôlego.

Ainda tem outros destaques como a pancadona "Contact" e as deliciosas "Fragments Of Time" com Todd Edwards e "Beyond". Enfim, "Random Acess Memories" é um disco revolucionário, com alma, conceito e cheio de boas intenções. E ainda você leva um monte de músicas boas de presente.

Altamente recomendado!


Sérgio Scarpelli