20/07/2009

Entrevista exclusiva com DJ Memê

Conheça um pouco mais sobre este grande talento das pistas do mundo todo
 
 
 
 
 

Por Sérgio Scarpelli

Posso dizer que o DJ Memê é o cara. É o mais bem sucedido DJ brasileiro de todos os tempos. E pensa que isso muda alguma coisa? Que nada.  Ele é um sujeito boa praça sem aquela pegada marqueteira e afetada. Ele é autêntico. Tanto que não aperece com aquele papinho de fundir música brasileira com dance music. Ele fala abertamente que não tem nada de ritmo brasileiro. Seu negócio é House e Disco Music. E nem podia ser diferente. Quem não se lembra daquela base de “Disco Inferno” do The Trammps que ele colocou na versão de “Descobridor do Sete Mares” do Lulu Santos. O DJ Memê é também um grande “remixer”. Shakira que o diga. Graças a sua versão de “Estoy Aqui”, a musa colombiana estourou no mundo. E exemplos assim não faltam em sua carreira. Como “The Cure and The Cause” do Fish Go Deep que nas suas mãos virou hit no mundo inteiro. E merecidamente porque é de longe o melhor remix do som. Memê também foi convidado por “Yoko Ono” para remixar “Give Peace a Chance” de John Lennon. E não é que o cara colocou esta versão no primeiro lugar da parada? Mais recentemente produziu o remake do hit disco de Patrick Juvet"I Love America", na voz da francesa "Hanna Hais" e também lançou o single "Any Love", uma baita música.


Sérgio: Antes de mais nada queria dizer que sou seu fã e que você é vida inteligente na Dance Music

Memê: Sinto-me muito honrado e agradecido quando um elogio desses vêm de quem realmente entende e gosta de música. Vale por 1000 !


Sérgio: Conta pra mim como foi este seu encontro com Yoko Ono e a emoção de trabalhar com o material de John Lennon?

Memê:  A Yoko Ono chegou a mim através de Craig Roseberry, seu agente, que por sua vez me descobriu através de Michael Paoletta, famoso colunista da “Billboard” e fã do meu trabalho desde 96, quando o meu remix de “Estoy Aqui” estourou a Shakira no mundo.  O caso foi o seguinte: Yoko aproveitou a gravação original feita por John Lennon, em que ela mesma estava presente e participou na década de 70, quando eles se hospedaram naquele hotel no Canadá. E colocou sua voz por cima, fazendo um discurso pela paz, e aproveitando o refrão cantado por Lennon e o coro presente. Vários remixes desse track foram feitos , mas nenhum havia funcionado como ela queria, ou seja , topo da parada Dance da Billboard. Craig conversou com Michael, que me indicou, mostrando meu remix para “ The cure and the cause” do “Fish Go Deep. Recebi a encomenda para entregar tudo em 2 semanas e ao ouvir a fita original da música, nem acreditei quando percebi que a voz de Lennon ainda estava lá, e perguntei a eles: “ Mas a voz de Lennon está aqui também…posso usar, ou a viúva vai ficar incomodada???” . A resposta foi a seguinte: “ Por ela, você pode usar t-u-d-o que está na fita.” Assim…lá estava eu mexendo com um clássico, mais uma vez. Pra minha sorte, o remix chegou no topo da parada Dance da Billboard…como ela queria.

 
 
 
 

Sérgio:
Você fez mais de 150 remixes para artistas conhecidos. Como é este lance de trabalhar com pop star? É difícil ?

Memê:
Não é dificil não…é so nao ter “medo” deles e tratá-los como igual, pois no fundo eles estão sempre de saco cheio de serem tratados de forma especial e com muitos cuidados e “mentiras sinceras”. Eu nao me intimido com isso. Já pus muito dedo na cara quando precisou, e por incrível que pareça, ganhei respeito por isso. Mas mesmo assim, você tem que ter um certo nível de cultura pra poder bater bola, mesmo que seja na área técnica musical, senão não serve pra eles. Passam por cima.


Sérgio:
David Morales foi um dos grandes responsáveis pelo estouro do Jamiroquai  no mundo com o remix de Space Cowboy. Você tem histórias parecidas em que o remix levantou a música?

Memê
: “Estoy Aqui” da Shakira foi um grande exemplo. Quando ela chegou aqui no Brasil pela primeira vez, as redes de TV não deixaram ela se apresentar com a versão original da música, pois ninguém conhecia. Só se apresentava se fosse com o meu remix. O remix de Jorge Vercillo “Que nem a Maré” foi outra delas .  Fernanda Abreu com “Torcer pela Paz” também. A original nem tocou, e o remix estourou no país todo. Mas um dos maiores exemplos é o “Skank” com “Mandrake e os Cubanos”  que foi adotada pela banda como a versão oficial. Eles gostaram tanto do remix, que fizeram o video clip com ele.
 

Sérgio: 
Onde é que você se diferencia de outros DJs famosos no mundo? Sua brasilidade ajuda?

Memê: Não sei onde entra a minha brasilidade na minha música, pois não me identifico com os ritmos do Brasil. Meu som é baseado 100% na House music.  Quando eu era garoto em casa, minha mãe ouvia Gershwin e Ella Fitzgerald, meu pai só ouvia Bossa Nova, que é baseada em acordes do Jazz , e eu…Disco Music todos os dias. Então…não corre percussão nas minhas veias, mas já percebi que tenho uma maneira de construir música que eles acham diferente…mas ainda não sei onde. Melhor nem descobrir, pois eu posso tentar imitar a mim mesmo e estragar tudo..risos

 
 
 
 


Sérgio:
Conta um pouco como rolou sua carreira…Como é que você se tornou DJ?

Memê: Acho que nasci assim, pois desde os 11 anos eu gosto de tocar as músicas que gosto para todos em volta, e já fazia as minhas festinhas no meu playground. Como eu nunca gostei de futebol, a música e as festinhas foram a maneira de socializar com meus amigos, e ser alguem naquela minúscula e esquisita “sociedade”, que era a minha adolescência. E assim cresci e nunca mais parei. Nunca fiz nada que não fosse ligado a música.


Sérgio:
Quem foi sua referência?

Memê: Minha referência era tudo o que estava ligado à música de pista. Tanto os artistas, quanto os filmes, rádios, capas de discos, e tudo o mais que envolvia a cultura “Club”.


Sérgio:
O que você gosta de ouvir fora dos estúdios e longe das pick ups?

Memê:
No máximo Bossa Nova, senão continuo ouvindo House e Disco.


Sérgio: Tem uma música preferida de todos os tempos?

Memê: Sim!!! “ Runaway” do “The Sausoul Orchestra feat. Loleatta Holoway”. Gosto tanto dessa música, que ela toma o 1º e o 2º lugar da minha lista.


Sérgio:
Pra você qual é o futuro da música?

Memê:
A música de alguma forma deixou de ser algo somente para um círculo pequeno produzir e o resto do mundo assistir e consumir. Hoje em dia, todos podem contribuir musicalmente de alguma forma, desde criar sua própria radio na internet , até suas próprias músicas no computador. Nao há mais limites nem para comprá-las ou mesmo assistir ou criar videos musicais. Todos podem tudo ! E isso vai mudar a cara da música nos próximos 10 anos. O que é bom, ficará e sempre haverá gente para perpetuar. O que é ruim, vai existir também , mas vai durar 15 minutos, depois será trocado por algo novo…como já vem acontecendo com a música na pista…vide o tal de electro, e minimal. Bye,bye pra eles.
 

Sérgio: Você não acha que com a internet muita coisa perde a identidade? Que o músico passa a ser mais um arquivo mp3?

Memê: Não. Como eu disse antes, a identidade será múltipla a partir de hoje, e não apenas de poucos. É so prestar atenção com mais cuidado , mas também não sera mais  possível acompanhar tudo como se fazia antes.. Ficará impossível conhecer tanta coisa…mas é aí que começará uma escolha bem mais seletiva para separar o “joio do trigo”, e então…começará tudo de novo. O mundo é assim…por isso certos hábitos sempre voltam…leve o tempo que levar. Tudo volta ao “normal” sempre.


Sérgio: 
Escuto muita gente se vangloriar dos “gigas” de músicas que tem em seu computador. E  na maioria das vezes não sabem nem o que tem? Isso não é ruim para os artistas?

Memê:
O mundo está mudando. A palavra “ruim” está sendo re-definida, nesse ponto de vista aí, e é melhor acompanhar, pois não há mais volta !


Sérgio:
Qual uma música que você adoraria remixar e que nunca teve a oportunidade?

Memê:
Runaway da Saulsoul Orchestra com certeza. Mas já soube que a gravadora nem possui mais a fita original com os canais separados. Já era !!!
 

Sérgio: E seu trabalho como produtor? Tem novos projetos? Apresentações marcadas no Brasil?

Memê:
Toco todos os fins de semana, aqui no Brasil ou  fora dele, como Korea, Suíça, Amsterdam, Londres, Itália, Romênia, Indonésia, Alemanha, etc, etc,etc. Não o faço “Live P.A.”. pois não tenho interesse nisso ainda, mas pode ser um futuro próximo. Como produtor estou muito focado na produção de remixes para o exterior, e isso tem dado muito certo. Hoje em dia, vivo disso, praticamente, e estou sempre investindo em novos equipamentos e contatos fora do país , para manter a carreira. A cada ano, lanço uma música com meu proprio nome lá fora, pra apimentar a carreira como DJ. Funciona sempre.


Sérgio: Pra terminar, uma curiosidade pessoal. Shakira é mesmo aquele mulherão todo? risos

Memê: Viiiiixe !!! Ela já foi ainda melhor…acredita? Pra você ter idéia, segue uma estorinha real:  Quando ela veio ao Brasil em 97, a Rede Globo e a Sony Music promoveram um encontro entre nós no “Video-Show”,  e ficamos super amigos. Mais tarde, ela voltou ao país, e eu nem sabia. A Sony deu uma festa de fim de ano no Pão de Açúcar e lá estava eu com minha esposa, de repente uma mão cobre meus olhos…e obviamente eu levei tempo e não adivinhei que era ELA. Quando ela tirou a mão e eu virei…eu quase tive um treco, de tão “MULHERÃO” (digamos assim), ela estava. Eu não consegui disfarçar, pois a minha expressão mudou toda ao vê-la toda produzida (digamos assim), e minha esposa notou…lógico ! Depois veio comentar comigo que eu deveria ter sido mais discreto…hahahahahaha. Pô…culpa da colombiana, meu Deus !! Jennifer Lopez perde !!!
 

Sérgio: Muito obrigado pela entrevista Memê…

Memê: Foi lindo !!